Juíza do Trabalho em Campina Grande, compartilha como a escrita de crônicas se tornou espaço de elaboração das vivências humanas do Judiciário e instrumento de sensibilidade na magistratura.

Leitura e escrita sempre estiveram presentes na vida da juíza do Trabalho Ana Paula Cabral Campos. Titular da 5ª Vara do Trabalho de Campina Grande, com quase três décadas de atuação na magistratura trabalhista, ela conta que o interesse pelas crônicas surgiu muito antes da carreira jurídica — ainda na adolescência —, mas encontrou espaço real ao longo da vida profissional como uma necessidade íntima e transformadora.
Inicialmente sem qualquer pretensão literária, a escrita apareceu como forma de organizar sentimentos, digerir experiências e processar emoções que não encontravam outro caminho de expressão, como ela detalha abaixo no vídeo.
No vídeo abaixo, Ana Paula Cabral relata como foi o início da escrita como hobby e terapia.
O conflito humano que atravessa a escrita
A atuação na Justiça do Trabalho, marcada pelo contato diário com conflitos, frustrações e expectativas, inevitavelmente atravessa a produção literária da magistrada — mesmo quando o tema da crônica não é o trabalho em si.
Para Ana Paula, o ambiente forense é um espaço de intensa carga emocional. As dores das partes, muitas vezes absorvidas durante audiências e depoimentos, passam a ser elaboradas internamente e encontram na escrita uma via de transformação.
“O que eu vivo lá atravessa a minha escrita, porque atravessa a minha própria alma”, afirma.
A juíza reconhece que cada magistrado desenvolve sua própria forma de lidar com essas vivências. No seu caso, a escolha foi absorver, refletir e transformar.
Escrever para escutar melhor
A prática da escrita também influencia diretamente a forma como a magistrada escuta. Segundo ela, o hábito de escrever amplia o olhar, aprofunda a sensibilidade e qualifica a escuta no ambiente de trabalho.
Cada testemunho, cada fala das partes, passa a ser percebido para além do que é dito objetivamente. Há um exercício constante de tentar compreender o que está por trás das palavras, das emoções e dos silêncios.
“É como se aquilo já estivesse sendo escrito dentro de mim”, descreve.
Essa escuta mais expandida contribui para uma atuação que vai além do rigor da norma jurídica, sem afastar-se dela, mas incorporando uma dimensão humana indispensável à Justiça do Trabalho.

As brechas do tempo e a escrita possível
Em meio a prazos, audiências, viagens e à criação de quatro filhos, a escrita nunca teve hora marcada. Ela surgia nas brechas do cotidiano: durante deslocamentos para o interior, em viagens de ônibus, em intervalos improváveis.
Esses momentos, mesmo curtos, eram suficientes para produzir, revisar e organizar textos que mais tarde ganhariam forma definitiva.
“Uma hora, duas horas já eram muito para mim”, conta.
A escrita, aos poucos, deixou de ser apenas um hobby e passou a ocupar um lugar essencial na vida da magistrada, funcionando como espaço de descanso mental e emocional.
No vídeo a seguir, a magistrada conta como foi a experiência na produção do documentário com colegas.
A participação no projeto coletivo que resultou no lançamento de uma revista e de um documentário permitiu à magistrada compartilhar essa vivência da escrita com colegas magistrados, servidores e advogados.
O trabalho reuniu crônicas, poesias e relatos inspirados no cotidiano do tribunal, revelando múltiplos olhares sobre a mesma realidade: a vida forense e os conflitos humanos que a atravessam.
“A crônica é um recorte do olhar sobre a vida real”, explica.
A experiência coletiva foi marcada pela troca, pela escuta e pelo aprendizado a partir da diversidade de percepções.
Um convite aos colegas: não desistir dos próprios mundos
Ao final da entrevista, Ana Paula deixa uma mensagem aos colegas magistrados e associados da AMATRA-13: é preciso preservar os espaços que permitem florescer para além da função jurisdicional.
Segundo ela, dentro de cada pessoa existe um universo que precisa ser explorado — seja pela escrita, pela música, pelo esporte ou por qualquer outra forma de expressão.
“O trabalho é só um aspecto da nossa vida”, ressalta.
Mesmo em períodos de maior sobrecarga, é possível encontrar tempo para aquilo que é essencial. Para a magistrada, não se trata de organização perfeita, mas de escolhas e prioridades.
Mensagem final
