Pesquisa revela impactos da pandemia em 95% dos profissionais de saúde

Já estudo semelhante da UFPB que abrange todo o Nordeste está em fase de compilação de dados

A pandemia da covid-19 modificou de modo significativo a vida dos profissionais da área da saúde que há mais de um ano atuam na linha de frente do combate à doença. Quase 50% deles admitiram excesso de trabalho ao longo da crise sanitária, com jornadas acima de 40 horas semanais. Os dados são da pesquisa Condições de Trabalho dos Profissionais de Saúde no Contexto da Covid-19, realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em todo o território nacional.

Em nível regional, um projeto de pesquisa da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) estuda os impactos da pandemia de Covid-19 na saúde dos profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS) que atuam em instituições do Nordeste no enfrentamento da doença. Um questionário online foi aplicado até janeiro deste ano para avaliar o campo da saúde e da segurança em relação à situação enfrentada pelos trabalhadores dos nove estados nordestinos

Projeto da UFPB

O projeto chamado “A saúde dos trabalhadores da saúde no contexto da pandemia da covid-19: prevenção e cuidado” é realizado pelo Grupo de Pesquisa em Subjetividade e Trabalho (GPST) do departamento de Psicologia da UFPB e financiado pelo CNPq.

A pesquisa está analisando características como o uso de EPIs (incluindo o treinamento e a adesão para tal utilização); estratégias de defesa individuais e coletivas utilizadas no enfrentamento à pandemia, bem como as concepções de saúde e segurança no trabalho desses profissionais. Também será feito o mapeamento dos principais riscos (físicos-ambientais, psicossociais e cognitivos) a que estão expostos.

“Quando veio a pandemia, percebemos que esses profissionais estavam numa situação extremamente complexa. Então, entendemos que a universidade precisava contribuir para dar visibilidade a esse contexto. Para além do discurso de super heróis que estava em alta”, disse a coordenadora geral do projeto, Thaís Máximo.

Ela explica que o estudo quer atingir profissionais de todo Nordeste, de diferentes categorias profissionais e assim analisar o trabalho, os equipamentos de proteção, a cooperação entre as equipes, as implicações do trabalho para a saúde e sofrimento psíquico delas.

A pesquisa também desenvolve um aplicativo mobile e um observatório web. O app vai acompanhar o campo da saúde e segurança do trabalho de profissionais da saúde no Nordeste. Já site será um sistema para acompanhamento das informações atualizadas em tempo real, com os dados coletados nos estudos sobre as condições de trabalho.

 

Para a coordenadora, é de fundamental importância para dar visibilidade às questões de saúde, condições de trabalho e saúde dos trabalhadores da saúde do SUS. “Queremos devolver esses dados para a sociedade para que a partir deles possamos contribuir com um maior reconhecimento do trabalho desses sujeitos e políticas públicas de saúde e segurança no trabalho em saúde”, explica Thaís.

Pesquisa nacional

Já a pesquisa da Fiocruz, divulgada no início desta semana, mostrou que 45% precisam ter mais de um emprego para se manter e que 14% da força de trabalho que atua na linha de frente está no limite da exaustão. Conforme a consulta, os profissionais estão esgotados, não só por causa da proximidade com o alto número de casos e de pacientes mortos, inclusive colegas, parentes e amigos, mas também por alterações significativas provocadas pela pandemia em sua vida.

O levantamento, classificado pela Fiocruz como o mais amplo sobre as condições de trabalho dos profissionais de saúde desde o início da pandemia, analisou o ambiente e a jornada de trabalho, o vínculo com a instituição, a vida do profissional na pré-pandemia e as consequências do atual processo de trabalho, envolvendo aspectos físicos, emocionais e psíquicos desses trabalhadores.

Segundo a coordenadora do estudo, Maria Helena Machado, após um ano de caos sanitário, a pesquisa retrata a realidade dos profissionais que estão na linha de frente, marcados pela dor, sofrimento e tristeza, com fortes sinais de esgotamento físico e mental. “Trabalham em ambientes de forma extenuante, sobrecarregados para compensar o elevado absenteísmo. O medo da contaminação e da morte iminente acompanha seu dia a dia, em gestões marcadas pelo risco de confisco da cidadania do trabalhador, [medo de] perdas dos direitos trabalhistas, terceirizações, desemprego, perda de renda, salários baixos, gastos extras com compras de EPI [equipamentos de proteção individual], transporte alternativo e alimentação.”

De acordo com a pesquisa, 43,2% dos profissionais de saúde não se sentem protegidos ao enfrentar a covid-19. Para 23% deles, o principal motivo desse temor está relacionado com a falta, escassez e inadequação do uso de EPIs. Entre esses trabalhadores, 64% destacaram a necessidade de improvisar equipamentos.

O medo generalizado de se contaminar no trabalho foi apontado por 18% dos entrevistados; a falta de estrutura adequada para realização da atividade. por 15%; e fluxos de internação ineficientes, por 12,3%. Além disso, 11,8% citaram o despreparo técnico dos profissionais para atuar na pandemia e 10,4% denunciaram a insensibilidade de gestores para suas necessidades profissionais.

Transtornos

Os entrevistados apontaram ainda consequências graves e prejudiciais na saúde mental dos que trabalham na assistência aos pacientes com covid-19. As alterações mais comuns identificadas pelos profissionais no cotidiano são perturbação do sono (15,8%), irritabilidade/choro frequente/distúrbios em geral (13,6%), incapacidade de relaxar/estresse (11,7%), dificuldade de concentração ou pensamento lento (9,2%), perda de satisfação na carreira ou na vida/tristeza/apatia (9,1%), sensação negativa do futuro/pensamento negativo, suicida (8,3%) e alteração no apetite/alteração do peso (8,1%).

Sobre o trabalho diário, 22,2% relataram a convivência com um trabalho extenuante, embora 16% deles tenham indicado alteração referente a aspectos de biossegurança e contradições na rotina profissional, a mesma proporção relatou melhora no relacionamento entre as equipes.

Para os entrevistados, as transformações são reflexo de vários fatores, entre os quais, a falta de apoio institucional, relatada por 60%. Outros fatores que também afligem os trabalhadores da saúde são a desvalorização pela própria chefia (21%), a grande ocorrência de episódios de violência e discriminação (30,4%) e a falta de reconhecimento por parte da população usuária, neste caso, somente 25% se sentem mais valorizados.

Para Maria Helena Machado, ficou claro no estudo que 40% dos profissionais sofreram algum tipo de violência no ambiente de trabalho, uma situação que se agrava pela discriminação na própria vizinhança (33,7%) e no trajeto do trabalho para casa (27,6%). “Em outras palavras, as pessoas consideram que o trabalhador transporta o vírus e, portanto, ele é um risco. Se não bastasse esse cenário desolador, os profissionais de saúde experimentam ainda a privação do convívio social entre colegas de trabalho, a privação da liberdade de ir e vir, o convívio social e a privação do convívio familiar”, completou a coordenadora da pesquisa.

 

Fake news

A disseminação de fake news (notícias falsas) é um verdadeiro obstáculo no combate ao novo coronavírus, afirmam mais de 90% dos profissionais de saúde ouvidos na pesquisa.

No atendimento, 76% dos entrevistados relataram que o paciente tinha algum tipo de crença referente às notícias falsas, como a adoção de medicamentos ineficazes para prevenção e tratamento. E uma porcentagem expressiva (70%) dos trabalhadores não considera os posicionamentos de autoridades sanitárias sobre a covid-19 “consistentes e esclarecedores”, destacou a Fiocruz.

Perfil

O questionário elaborado pela Escola Nacional de Saúde Pública e pelo Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz foi aplicado em todas as categorias profissionais da área de saúde, incluindo médicos, enfermeiros, odontólogos, fisioterapeutas, farmacêuticos, administradores hospitalares, engenheiros de segurança do trabalho e sanitaristas e um expressivo número de residentes e graduandos, em mais de 2 mil municípios.

Os dados mostraram que a maior parte da força de trabalho é feminina (77,6%). A maioria das equipes é formada por enfermeiros (58,8%), seguida de médicos (22,6%), fisioterapeutas (5,7%), odontólogos (5,4%) e farmacêuticos (1,6%), com as demais profissões correspondendo a 5,7%.

O levantamento indicou ainda que cerca de 25% deles foram infectados pela covid-19.  Entre os profissionais da linha de frente, 44% têm idade entre 36 e 50 anos. Os que têm até 35 anos são 38,4%. Quanto à cor ou raça, 57,7% declararam-se brancos, 33,9%, pardos e 6%, pretos. De acordo com a pesquisa, 34,5% dos profissionais trabalham em hospitais públicos, 25,7%, na atenção primária e 11,2%, na rede privada. A maior parte está concentrada nas capitais e regiões metropolitanas (60%).

FONTES: G1 e ISTOÉ ONLINE